| Guerra do Paraguai | |||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|
Compilação de imagens da Guerra do Paraguai. |
|||||||
|
|||||||
| Intervenientes | |||||||
| Principais líderes | |||||||
| Forças | |||||||
| 150 mil paraguaios | 200 mil brasileiros, 30 mil argentinos, 5.583 uruguaios, Total: 235.583 soldados |
||||||
| Vítimas | |||||||
| Cerca de 300.000 mortos entre militares e civis. | 50 mil Brasileiros , 18 mil Agertinos 3.120 Uruguaios , |
||||||
A Guerra do Paraguai foi o maior conflito armado internacional ocorrido na América do Sul. Estendeu-se de dezembro de 1864 a março de 1870. É também chamada Guerra da Tríplice Aliança (Guerra de la Triple Alianza) na Argentina e Uruguai e de Guerra Grande, no Paraguai.
O conflito iniciou-se quando o governo imperial brasileiro, com a concordância da Confederação Argentina, após um ultimato, interveio militarmente no Uruguai, a fim de consolidar sua posição hegemônica na região e impor um governo uruguaio ["colorado"] transigente com os fortes interesses dos criadores rio-grandenses no norte daquele país. A reação militar do Paraguai a essa intervenção gerou o desencadeamento da guerra.
O Paraguai, que antes da guerra atravessava uma fase marcada por grandes investimentos econômicos em áreas específicas, encontrava-se, então, sob a presidência de Francisco Solano López, que reagiu à interferência brasileira no Uruguai declarando guerra ao Brasil, já que a deposição do governo uruguaio autonomista "blanco" significava a hegemonia brasileira e argentina plena sobre o Prata, pondo fim nos fatos à autonomia nacional paraguaia, com o condicionamento da sua saída ao mar, através do rio Paraná.
Brasil, Argentina e Uruguai, aliados, derrotaram o Paraguai após mais de cinco anos de lutas durante os quais o Brasil enviou em torno de 150 mil homens à guerra. Cerca de 50 mil não voltaram — alguns autores asseveram que as mortes no caso do Brasil podem ter alcançado 60 mil se forem incluídos civis, principalmente nas então províncias do Rio Grande do Sul e de Mato Grosso. Argentina e Uruguai sofreram perdas proporcionalmente pesadas — mais de 50% de suas tropas faleceram durante a guerra — apesar de, em números absolutos, serem menos significativas. Já as perdas humanas sofridas pelo Paraguai, são calculadas até em 300 mil pessoas, entre civis e militares, mortos em decorrência dos combates, das epidemias que se alastraram durante a guerra e da fome. Esses números são porém considerados excessivos, considerando-se que a população do país na época não chegaria possivelmente ao meio milhão de habitantes.
A derrota marcou uma reviravolta decisiva na história do Paraguai, tornando-o um dos países mais atrasados da América do Sul, devido ao seu decréscimo populacional, ocupação militar por quase dez anos, pagamento de pesada indenização de guerra, no caso do Brasil até a Segunda Guerra Mundial, e perda de praticamente 40% de seu território para o Brasil e Argentina. Após a Guerra, por décadas, o Paraguai manteve-se sob a hegemonia brasileira.
Foi o último de quatro conflitos armados internacionais que o Brasil lutou pela supremacia sul-americana. Tendo o primeiro sido a Guerra da Cisplatina, o segundo a Guerra do Prata, e o terceiro a Questão Uruguaiana. Juntas, integram o conjunto das Questões Platinas, na História das Relações Internacionais do Brasil.
Índice
|
Os estudos a respeito história da Guerra do Paraguai sofreram mudanças profundas desde o desencadeamento do conflito. Durante e após a Guerra, a historiografia brasileira, de forte cunho nacional-patriótico, limitou-se a explicar as causas da guerra como devida apenas à vontade de Solano López, profundamente diabolizado por essa literatura. A partir dos anos 1950, uma segunda corrente historiográfica, mais comprometida com uma visão do conflito deste a ótica dos povos, e não das classes dominantes das nações envolvidas nos confrontos, apresentou a versão de que o a guerra fora motivada pelos interesses de hegemonia das classes dominantes da Confederação Argentina e, sobretudo, do Império do Brasil. Essa historiografia chamou igualmente a atenção para a necessidade da discussão das sociedades envolvidas no conflito, para seu correto entendimento. Importante vertente dessa corrente apontou a guerra como nascida dos interesses do imperialismo inglês pelo Paraguai. A partir dos anos 1980, novos estudos propuseram razões diferentes, retomando em boa parte as visões originais sobre a Guerra.
A historiografia tradicional,[1] também chamada de Oficial [2] e Ufanista,[3] surgiu imediatamente após o conflito e perdurou até o final da década de 1960. Tratava-se de uma visão simplista e exagerada [4] das causas da Guerra do Paraguai que teria ocorrido graças às ambições infinitas de um supostamente megalomaníaco e sanguinário Solano López que tinha por intenção criar o “Paraguai Maior” através da conquista de territórios dos países vizinhos. A reação dos Aliados teria ocorrido então numa tentativa desesperada de fazer prevalecer a “civilização” de países constitucionais e democráticos contra a “barbárie tirânica” do Paraguai governado por López[5] [6]. Enquanto sua grande duração foi justificada pela obstinação de Pedro II de ver López derrotado por desprezá-lo ao considerá-lo mais um caudilho latino-americano[7] [8] e consequentemente, seria necessário lavar a honra do Brasil. Também se alegou que a irritação do Imperador teria ocorrido após uma proposta de López para casar-se com a princesa Isabel, mas isto nunca ocorreu e trata-se de uma invenção posterior de um autor norte-americano.[9] Mais tarde, surgiria o culto oficial dos heróis da guerra tais como o Duque de Caxias, Tamandaré, Osório e Mitre.[10] [11] Enquanto que no Paraguai, do fim da guerra até meados da década de 1930, López era visto também como um megalomaníaco que destruiu o país numa guerra desnecessária e fútil. [12] [13]
A chamada historiografia revisionista surgiu no final da década de 1960 e ganhou força durante a década de 1970-80. As origens remotas da mesma perduram do final do período monárquico do Brasil, quando os republicanos e militares insatisfeitos influenciados pelo Positivismo (como Benjamim Constant) realizaram ataques e críticas quanto a participação brasileira no conflito. Havia por detrás de tais acusações uma ideologia em comum entre os republicanos brasileiros, assim como argentinos e uruguaios, que tinham por objetivo desacreditar o regime monárquico ao considerá-lo o único culpado pelo desencadeamento da Guerra do Paraguai e das atrocidades cometidas.[14] Enquanto a partir da década de 1920, uma nova visão sobre a guerra surgiu no Paraguai graças aos esforços dos ditadores que buscavam uma legitimidade para seus governos autoritários ao apresentar um modelo anterior representados por Francia, Carlos López e Solano López.[15] Entretanto, o revisionismo histórico da Guerra do Paraguai recebeu impulso de fato em 1968 a publicação da obra “A Guerra do Paraguai – Grande negócio!” do escritor Leon Pomer onde alegou que a guerra ocorreu por interesse único da Grã-Bretanha [16] (recentemente Pomer reconheceu que a Grã-Bretanha não teve participação alguma).[17]
Na obra, em tantas outras publicadas no período, o Paraguai é apresentado como um país socialista e igualitário, além de extremamente moderno, rico e poderoso. Seu governante, Solano López, seria uma espécie de líder visionário, antiimperialista e socialista que buscava tornar seu país livre das influências “imperialistas” estrangeiras. A Grã-Bretanha, supostamente receosa deste modelo autônomo e temendo que pudesse vir a servir de exemplo para os países vizinhos, tratou de ordenar que o Brasil, Argentina e Uruguai, simples "marionetes", destruíssem o Paraguai, exterminando praticamente toda a população paraguaia conseqüentemente.[18] [19] [20] [21] [22] [23] Esta visão (também considerada simplista, além de apelativa por resumir-se ao denuncismo emocionado para esconder a falta de evidências empíricas) desencadeada por historiadores de esquerda marxista foi fruto das situações da época em que surgiu. Havia um desejo não só de transformar o Paraguai numa espécie de precursor de Cuba (que ao invés de ter combatido o “imperialismo” norte-americano, teria agido contra o “imperialismo” britânico), mas, também de prejudicar a imagem dos heróis da guerra cultuados pelos regimes ditatoriais militares de então que os perseguiam.[24] [25] Tal visão propagada pela historiografia de esquerda, que ainda é ensinada (doutrinada) na maior parte das escolas dos países latino-americanos, carece de qualquer tipo de provas concretas, dados ou evidências empíricas.[26][27] [28][29] [30] Contudo, os efeitos da visão historiográfica revisionista do conflito foram impactantes, pois diversas gerações de latino-americanos (principalmente brasileiros, argentinos e uruguaios) vieram a observar seu passado de uma forma pessimista e a desprezarem os vultos históricos de seus países. [31] Tais efeitos foram ainda mais sentidos no Paraguai, onde a versão revisionista foi assumida como doutrina oficial de Estado, ainda mais depois da transformação de Solano López em herói sem defeitos.[32] [33] O historiador Francisco Doratioto esclarece o tema:[34]
"Culpar a Grã-Bretanha pelo início do conflito satisfaz, nas décadas de 1960 a 1980, a distintos interesses políticos. Para alguns, tratava-se de mostrar a possibilidade de construir na América Latina um modelo de desenvolvimento econômico não dependente, apontando como um precedente o Estado paraguaio dos López. Acabaram, por negar essa possibilidade, na medida em que apresentaram a potência central - a Grã-Bretanha - como onipotente, capaz de impor e dispor de países periféricos, de modo a destruir qualquer tentativa de não-dependência. Como resultado, o leitor desavisado, ou os estudantes que aprenderam por essa cartilha, podem ter concluído que a história de nosso continente não se faz ou não se pode fazer aqui, pois os países centrais tudo decidem inapelavelmente. Os latino-americanos, nessa perspectiva, deixam de ser o sujeito de sua própria história, ou, de outro modo, vêem negado seu potencial de serem tais sujeitos."
Em 1990, o historiador Ricardo Salles publicou a obra “Guerra do Paraguai: Escravidão e Cidadania na Formação do Exército” onde apresentou uma análise sobre a historiografia tradicional e revisionista: “Se os estudos tradicionais sobre a guerra pecam por um excesso de oficialismo e factualismo, por sua vez, as versões revisionistas da história do conflito tendem a simplificações nem sempre embasadas em investigações mais profundas”. [35] Esta obra foi uma das primeiras de uma nova gerações de historiadores que buscavam analisar a Guerra do Paraguai sem as paixões nacionalistas e nem ideológicas, mas sim através de um estudo sério, imparcial e responsável. [36] [37] Os estudos realizados por estes profissionais revelaram que as causas do conflito não foram em razão de influência externa ou por uma pura e simples ambição de um único homem. Mas sim, uma série de fatores relacionados a formação como Estados-nações dos países participantes e dos processos geopolíticos e econômicos da região, resultante de heranças históricas, políticas e geográficas de duas culturas diferentes: portuguesa e espanhola. [38] [39] [40] [41] [42]
Este verbete tomará como base estes estudos mais recentes a respeito da Guerra do Paraguai realizados por historiadores profissionais, mas também apresentará em determinados pontos, para efeito de comparação, as alegações das outras duas correntes historiográficas ultrapassadas (tradicional e revisionista).
Após o término da Guerra do Prata em 1852 com a vitória dos aliados (unitaristas argentinos, colorados uruguaios e Império do Brasil) sobre os federalistas argentinos e blancos uruguaios liderados por Juan Manoel Rosas, a região do Prata foi pacificada. Contudo, não tardou para que logo os rivalidades se acirrassem entre a Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai graças aos desentendimentos quanto às fronteiras entre os países, a liberdade de navegação dos rios platinos, as disputas pelo poder por parte das facções locais (federalistas e unitaristas na Argentina, e blancos e colorados no Uruguai) e rivalidades históricas de mais de três séculos.[43] [44] [45] [46] [47]
Após a vitória em Monte Caseros em 1852, foi assinado o Acordo de San Nicolas, que modificou completamente o pacto unitarista na então Confederação Argentina, descentralizando o país e permitindo as províncias uma grande autonomia. Tal acordo não fora aceito por Buenos Aires, que não aceitaria a possibilidade de perder sua influência e poder sobre as demais províncias, levando-a se retirar da confederação. De 1854 até 1862, a Argentina esteve dividida em dois Estados rivais que lutavam para subjugar um ao outro. De um lado, os federalistas da Confederação Argentina, liderados por Justo José Urquiza (comandante-em-chefe das forças aliadas em Monte Caseros[48]), do outro, os unitaristas de Buenos Aires sob Bartolomeu Mitre (um dos comandantes argentinos que lutaram ao lado dos aliados em Caseros). Os conflitos armados entre ambos se extinguiram com a vitória dos unitaristas sobre os federalistas na batalha de Pavan em 1861, que resultou na incorporação da Confederação Argentina a Buenos Aires, formando como resultado a República Argentina em 1862, tendo Mitre como seu primeiro presidente. [49] [50]
A posição de Mitre sobre o país recém reunificado era tênue e o presidente recém-eleito [51] governava efetivamente apenas a região da província de Buenos Aires. Para manter firme o país sob o controle do governo central, Buenos Aires dificultava a exportação de produtos provenientes das demais províncias, com o intuito de mantê-las dependentes da capital. Os antigos desejos da recriação do Vice-Reinado do Prata não haviam desaparecidos por completo, de maneira que Buenos Aires também criava dificuldades para os produtos paraguaios, visando enfraquecer o país vizinho e forçá-lo a aceitar sua supremacia. [52] Os federalistas e o governo paraguaio, ambos sufocados pela falta de liberdade de navegação dos rios platinos, buscaram realizar suas exportações, e assim manter suas independências, através dos portos de Montevidéu, capital do Uruguai, então governado pelo partido Blanco. [53] Para manter o país unido, e impedir novas revoltas e guerras civis por parte dos federalistas, Mitre apoiou os membros do partido Colorado no Uruguai em suas revoltas contra o governo blanco. Enfraquecendo o governo blanco, possivelmente permitindo aos seus aliados colorados chegarem ao poder, Mitre seria capaz de manter sob seu controle não só as demais províncias argentinas, mas também o Paraguai e Uruguai, tornado uma possibilidade real a recriação do Vice-Reinado. Formara-se, portanto, um quadro de alianças circunstanciais, de um lado unitaristas argentinos e colorados uruguaios, do outro, federalistas argentinos, paraguaios e blancos uruguaios. [54] [55]
Mitre tinha noção da militarização do Paraguai, e temia uma aliança militar entre este país e as demais províncias argentinas (principalmente as sempre problemáticas Corrientes e Entre Rios governadas por Urquiza), que poderia resultar num ataque direto a Buenos Aires e conseqüentemente na derrota dos unitaristas (ainda mais por que o exército argentino remontava a apenas 6.000 homens espalhados pelo território). Havia em Buenos Aires, entre a população em geral, um certo desejo de ver ocorrer uma guerra entre o Paraguai e o Brasil. A razão disto era por que o Império sempre impediu a anexação do Paraguai e do Uruguai por parte da Argentina e também por uma rivalidade histórica herdada de suas respectivas pátrias-mães (Portugal e Espanha). Contudo, os resultados seriam imprevisíveis se tal conflito de fato viesse a ocorrer. Se o Paraguai vencesse, as províncias argentinas muito provavelmente se revoltariam e a unificação de toda a região viria a ocorrer, mas não sob os auspícios de Buenos Aires. Se o Brasil vencesse, a possibilidade de anexação dos países vizinhos pela Argentina se tornaria definitivamente impossível. E a guerra civil uruguaia iniciada em 1863 poderia vir a causar este temeroso conflito entre Brasil e Paraguai. Mitre percebeu que ela precisava acabar e logo, e por tal razão acolheu com bons olhos a intervenção brasileira sobre o país vizinho.[56]
Após a derrota do ditador argentino Rosas em 1852, as relações entre o Brasil e Paraguai, até então formalmente aliados, tornaram-se cada vez mais complicadas e tensas. A razão disto era devido à incapacidade de ambos os países de chegarem a um acordo quanto as delimitações da fronteira e à livre navegação dos rios Paraná e Paraguai. A república paraguaia reivindicava os limites fronteiriços no rio Branco, de acordo com o Tratado de Santo Ildefonso assinado em 1777 por Portugal e Espanha. Entretanto, o Brasil recordou ao Paraguai que o Tratado de Badajoz assinado em 1801 por Portugal e Espanha não só anulara o tratado de 1777 como também definira a fronteira na região no Rio Apa, mais ao sul do rio Branco.[57] [58] O Paraguai não via com bons olhos a possibilidade de tal fronteira, pois o rio Apa permanecia seco por boa parte do ano, o que facilitaria o avanço de tropas brasileiras no caso de um conflito armado entre ambos os países. [59] A tensão entre os dois países chegara a tal ponto que o ditador paraguaio Antonio Carlos López acabou por expulsar o enviado brasileiro Felipe José Pereira Leal em 1853 e no ano seguinte, proibiu a navegação de qualquer navio estrangeiro nos rios enquanto não se definisse de uma vez por todas os limites entre o Brasil e Paraguai. [60]
O Império brasileiro se alarmou com a situação, pois a província do Mato Grosso ficou efetivamente isolada do resto do mundo, tanto em relação a contato, quanto também a comércio e transporte (não havia estradas por terra, e da cidade de São Paulo até Cuiabá levava cerca de seis meses de caminhada por terreno selvagem e praticamente intransponível). As mesmas medidas que Buenos Aires utilizava contra o Paraguai dificultando-lhe o contato e comércio com o mundo exterior para negociar em situação de vantagem, a república paraguaia decidiu utilizar na relação com o Brasil. Após alguns meses de indecisão, o governo brasileiro enviou uma esquadra formada por 20 navios de guerra, com um total de 130 canhões e dois mil soldados (conforme a teoria da Projeção do Poder) para se chegar a um acordo quanto a navegação dos rios, mas o almirante recebera ordens de não atacar o Paraguai em hipótese alguma. Nenhuma das duas nações tinha interesse numa guerra, mas após alguns impasses, assinou-se um Tratado de Paz, Amizade, Comércio e Navegação em 1856 que permitia a passagem dos navios brasileiros pelos rios Paraná e Paraguai. Quanto à fronteira, ficou acordado que as negociações ficariam suspensas até 1862. O Mato Grosso ficou mais de dois anos completamente isolado do resto do mundo, e o Brasil percebeu que tal situação não poderia voltar a ocorrer. [61] Antonio Carlos Lopez sabia que a situação dos limites quanto a fronteira provavelmente não seria resolvido de forma pacífica, pois ambos os países se recusavam a ceder um palmo de terra da região entre os dois rios riquíssima em erva-mate, e iniciou os preparativos para um conflito armado com o Império.
O Paraguai não tinha problemas em relação à delimitação de fronteiras somente com o Brasil, mas também com a Argentina e Bolívia quanto a região do Chaco. Os três países fizeram parte do antigo Vice-Reinado do rio da Prata, que foi incapaz de se manter unido e coeso após sua independência da Espanha no início do século XIX. Por isso que as delimitações das fronteiras entre as nações castelhanas eram ainda mais complicadas de se definir, pois não havia tratados de limites anteriores por onde se basearem (diferente do que ocorria em relação ao Brasil e seus vizinhos). Buenos Aires, que ainda não desistira de recriar o antigo Vice-Reinado, buscava criar dificuldades para o Paraguai comercializar com o exterior, impedindo-o de utilizar os portos da cidade e assim submetê-lo a sua tutela. A nação paraguaia, temerosa de ser isolada do resto do mundo e eventualmente incorporada pela Argentina, buscou entrar em contato e realizar alianças com os blancos uruguaios (que governavam o Uruguai e possibilitariam a utilização do porto de Montevidéu para escoar os produtos paraguaios) e com os federalistas argentinos (que ainda sonhavam em se tornar independentes e assim manter em xeque o poder de Buenos Aires).[62] [63]
Em 1862, Carlos Antonio López falecia, e seu filho Francisco Solano López tornara-se o novo ditador do país, dando continuidade à política de seu pai de desenvolver internamente o país através da contratação de técnicos estrangeiros. [64] López havia optado por uma política agressiva e ambiciosa quanto a seus vizinhos e preparou seu país para a uma guerra, logo que assumiu o poder, pois desejava tornar o Paraguai uma potência regional.[65] O ditador creditava que após a intervenção brasileira no Uruguai em 1864, o Paraguai seria o próximo alvo (apesar de não haver qualquer indício de um desejo do Brasil de fazê-lo naquele momento) e iniciou o ataque a província do Mato Grosso.[66]
O Paraguai pré-1864 era um Estado autoritário, onde o presidente governava despoticamente, sem quaisquer limites para seus poderes. [67] Não havia uma Constituição (e conseqüentemente, garantias fundamentais) e nem um Poder Legislativo (e, portanto, qualquer forma de representatividade). Existia um Congresso, formado por grandes proprietários de terras, que tinha por única finalidade sacramentar as decisões dos ditadores paraguaios e que era convocado de maneira irregular e somente quando estes últimos assim o desejavam.[68]
Após a morte de Francia e o advento de Carlos Antonio López ao poder do país, tentou-se retirar o Paraguai de seu isolamento e estabeleceram-se contatos diplomáticos e econômicos com a comunidade internacional. Técnicos estrangeiros (principalmente britânicos) foram trazidos com o intuito de modernizar o país, armamentos foram comprados e jovens paraguaios enviados para receberem treinamento na empresa britânica Blyth e Co. Criou-se em Ibicuí, no ano de 1854, uma fundição de ferro, que possibilitou a construção de armamentos militares e ferramentas agrícolas. Engenheiros britânicos construíram uma estrada de ferro no Paraguai, inaugurada em 1856 [69] (a única do país até a guerra e não teve utilização estratégica alguma no conflito).[70] Segundo Francisco Doratioto:
"É fantasiosa a imagem construída por certo revisionismo histórico de que o Paraguai pré-1865 promoveu sua industrialização a partir de “dentro”, com seus próprios recursos, sem depender dos centros capitalistas, a ponto de supostamente tornar-se ameaça aos interesses da Inglaterra no Prata. Os projetos de infra-estrutura guarani foram atendidos por bens de capitais ingleses e a maioria dos especialistas estrangeiros que os implementaram era britânica. As manufaturas oriundas da Inglaterra chegaram a cobrir, antes de 1865, 75% das importações paraguaias."[71]
A economia do Paraguai era agrária em sua quase totalidade, tendo como produto principal à erva-mate, mas também se exportava madeira, fumo, cigarros e laranja. Em troca, importava-se produtos manufaturados, pois inexistiam fábricas no país que pudesse produzi-los.[72] O comércio exterior era de 560.392 libras esterlinas (a moeda britânica da época) [73] A arrecadação de impostos no final de 1864 estava em torno de 314.420 libras esterlinas[74] e era extremamente deficiente, chegando-se a ponto de acrescentarem também o dizimo das Igrejas.[75] Para efeitos de comparação, a arrecadação do Brasil atingia 4.392.226 libras esterlinas, a da Argentina 1.710.324 libras esterlinas e o Uruguai 870.714 libras esterlinas.[76]
As alegações dos autores revisionistas de que não havia analfabetismo no Paraguai graças a um sistema educacional excepcional e também uma igualdade social são improcedentes. [77] O ensino era deficiente e havia poucas escolas, sendo que somente os homens tinham acesso as mesmas, enquanto as mulheres eram proibidas de aprender a ler e escrever.[78] Existiam escravos no Paraguai, mesmo após a decretação da liberdade de todos os nascituros após 1842, tendo o seu número alcançado cerca de 25 mil em 1865[79] e muitos foram forçados a lutar na guerra. A primeira tentativa de colonização estrangeira ocorreu com a vinda de 410 franceses e resultou num grande fracasso, tendo o ministro estrangeiro da França acusado o governo paraguaio de transformar os colonos em escravos.[80] A população paraguaia não atingia mais de 1 milhão de habitantes conforme os revisionistas alegam e sim 318.144,[81] ou 400.000,[82] e no máximo, 650.000 pessoas. A população do Brasil neste momento alcançava cerca de 9.100.000 de habitantes, a da Argentina 1.737.076 habitantes e o Uruguai 250.000 habitantes.[83]
Ao assumir a posição de seu falecido pai, Solano Lopez possuía um exército de 73.273 homens. O exército de fato detinha cerca de 12.945 homens na ativa, além de 16.484 na reserva, e do total, 43.846 não “tinham instrução militar e se resumiam a fazer exercício de ginástica aos domingos, com armas simuladas”.[84] Estes números impressionantes são resultados de uma mobilização total para a guerra planejada pelo país e não de um efetivo em tempos de paz. A organização militar era extremamente deficiente, e a “oficialidade paraguaia restringia-se a cinco coronéis, dois tenentes-coronéis, dez majores, 51 capitães e 22 primeiros-tenentes” numa força armada de mais de 70 mil homens.[85] A improvisada[86] esquadra naval paraguaia era formada por 15 navios mercantes convertidos em belonaves. [87] De acordo com Ricardo Salles:
"É certo que contava com um exército de setenta a cem mil homens no início do conflito, mas seus soldados estavam mal equipados. A imensa maioria do armamento de infantaria era ainda constituída por espingardas e carabinas de pederneira e canos de alma lisa, de recarga lenta, curto alcance e pouca precisão. O mesmo se aplicava a artilharia, também dotada quase que exclusivamente de peças de alma lisa. Os oficiais eram mal preparados e o sistema de comando não existia; todas as decisões concentravam-se em López. Os serviços de logística eram muito deficientes. O fornecimento de víveres também era precário, assim como o atendimento hospitalar. A escassez de alimentos, armamentos e munições sempre foi um problema."[88]
O Paraguai buscou a solução armada para os conflitos com seus vizinhos num momento em que não tinha capacidade econômica (para sustentar uma guerra de longa duração), nem populacional (para obter novos efetivos), nem militar (equipamento bélico e organização militar obsoletos para um conflito armado moderno) e nem diplomática (seus pretensos aliados, os federalistas argentinos e os blancos uruguaios os deixaram a própria sorte). [89] Francisco Doratioto conclui:
"A Guerra do Paraguai foi fruto das contradições platinas, tendo como razão última a consolidação dos Estados nacionais na região. Essas contradições se cristalizaram em torno da Guerra Civil uruguaia, iniciada com o apoio do governo argentino aos sublevados, na qual o Brasil interveio e o Paraguai também. Contudo, isso não significa que o conflito fosse a única saída para o difícil quadro regional. A guerra era umas das opções possíveis, que acabou por se concretizar, uma vez que interessava a todos os Estados envolvidos. Seus governantes, tendo por bases informações parciais ou falsas do contexto platino e do inimigo em potencial, anteviram um conflito rápido, no qual seus objetivos seriam alcançados com o menor custo possível. Aqui não há ‘bandidos’ ou ‘mocinhos’, como quer o revisionismo infantil, mas sim interesses. A guerra era vista por diferentes ópticas: para Solano López era a oportunidade de colocar seu país como potência regional e ter acesso ao mar pelo porto de Montevidéu, graças a aliança com os blancos uruguaios e os federalistas argentinos, representados por Urquiza; para Bartolomeu Mitre era a forma de consolidar o Estado centralizado argentino, eliminando os apoios externos aos federalistas, proporcionando pelos blancos e por Solano López; para os blancos, o apoio militar paraguaio contra argentinos e brasileiros viabilizaria impedir que seus dois vizinhos continuassem a intervir no Uruguai; para o Império, a guerra contra o Paraguai não era esperada, nem desejada, mas, iniciada, pensou-se que a vitória brasileira seria rápida e poria fim ao litígio fronteiriço entre os dois países e às ameaças à livre navegação, e permitira depor Solano López."
"Dos erros de análise dos homens de Estado envolvidos nesses acontecimentos, o que maior conseqüência teve foi o de Solano López, pois seu país viu-se arrasado materialmente no final da guerra. E, recorde-se, foi ele o agressor, ao iniciar a guerra contra o Brasil e, em seguida, com a Argentina."[90]
Após mais de uma década de guerra civil, o Uruguai da década de 1850 parecia estar se recuperando economicamente da devastação ocorrida, graças ao governo de Bernardo Berro, do partido Blanco.[91] O presidente buscava restaurar as finanças criando um imposto sobre a transferência de gado do Uruguai para o Brasil e vice-versa, após revogar o Tratado de Comércio e Navegação de 1851 assinado com o Império.[92] Este ato, em conjunto com os esforço do governo de impedir a utilização de escravos dentro do território uruguaio, feriram os interesses dos estancieiros gaúchos que detinham estâncias nos dois lados da fronteira. Berro tinha por objetivo diminuir a desigualdade entre a concorrência do charque gaúcho com o uruguaio, pois a utilização de mão-de-obra escrava aliada a livre transferência de gado tornavam os custos de produção muito baratos para os brasileiros residentes no Uruguai. Esta concorrência desleal criara fortes rancores por parte dos uruguaios quanto aos brasileiros, que burlavam as leis do país em benefício próprio. As reclamações dos estancieiros uruguaios logo se chegou ao Parlamento do país em abril de 1862, onde os políticos reclamaram o fato dos estancieiros brasileiros já deterem praticamente metade do território do Uruguai.[93]
Os brasileiros eram em torno de 33,3% da população uruguaia, sem contar com os uruguaios descendentes de brasileiros e portugueses (não esquecendo que a região fora colônia portuguesa de 1679 até 1777 e província brasileira de 1817 até 1828).[94] Esta preocupação do governo paraguaio quanto a presença brasileira no país aumentou ainda mais após o início da ocupação dos territórios brasileiros ao longo das fronteiras com o Uruguai, do Paraguai e Argentina, resultando no crescimento das tensões entre os países.[95]
Uma crise econômica resultante da abundância generalizada do charque (que levou o valor do gado a cair drasticamente), permitiu aos uruguaios ligados ao partido Colorado e aos brasileiros radicados no país, insatisfeitos com a política nacionalista de proteção aos interesses do Uruguai do presidente Berro, aliarem-se numa revolta armada contra o governo legal, liderada por Venâncio Flores. Berro não resistiu as pressões e renunciou, e em seu lugar assumiu o presidente do Senado, Atanásio Aguirre (também pertencente ao partido Blanco).[96] [97] [98]
Em represália à intervenção no Uruguai, no dia 11 de Novembro de 1864, Francisco Solano López ordenou que fosse apreendido o navio brasileiro Marquês de Olinda. No dia seguinte, o navio a vapor paraguaio Tacuari apresou o navio brasileiro, que subia o rio Paraguai rumo à então Província de Mato Grosso, levando a bordo o coronel Frederico Carneiro de Campos, recém-nomeado presidente daquela província e o médico Antônio Antunes da Luz, entre outros. A tripulação e passageiros foi feita prisioneira e enviada à prisão, onde todos, sem exceção, sucumbiram à fome e aos maus tratos.
Sem perda de tempo, as relações com o Brasil foram rompidas e já no mês de dezembro o sul de Mato Grosso, atual Mato Grosso do Sul, foi invadido, antes mesmo de qualquer declaração formal de guerra ao Brasil, que só foi feita no dia 13 de Dezembro. Três meses mais tarde, em 18 de Março de 1865, López declarou guerra à Argentina, que exigia neutralidade no conflito e não permitira que os exércitos paraguaios atravessassem seu território para combater no Uruguai e invadir o sul do Brasil. Quando as notícias dos acontecimentos começavam a chegar a Dom Pedro II e seu ministério no Rio de Janeiro, capital do Império, em março de 1865 as tropas de Solano López penetraram em Corrientes (Argentina), visando o Rio Grande do Sul e o Uruguai, onde esperavam encontrar apoio dos blancos. O Uruguai, já então governado por Venâncio Flores, instalado pelo Governo Imperial brasileiro, solidarizou-se com o Brasil e a Argentina.
Durante a primeira fase da guerra (1864-1865) a iniciativa esteve com os paraguaios. Os exércitos de López definiram as três frentes de batalha iniciais invadindo Mato Grosso, em dezembro de 1864, e, nos primeiros meses de 1865, o Rio Grande do Sul e a província argentina de Corrientes. Atacando, quase ao mesmo tempo, no norte (Mato Grosso) e no sul (Rio Grande e Corrientes), os paraguaios estabeleceram dois teatros de operações.
A invasão de Mato Grosso foi feita ao mesmo tempo por dois corpos de tropas paraguaias. A província achava-se quase desguarnecida militarmente, e a superioridade numérica dos invasores permitiu-lhes realizar uma campanha rápida e bem-sucedida.
Um destacamento de cinco mil homens, transportados em dez navios e comandados pelo coronel Vicente Barros, subiu o rio Paraguai e atacou o Forte de Nova Coimbra. A guarnição de 155 homens resistiu durante três dias, sob o comando do tenente-coronel Hermenegildo de Albuquerque Porto Carrero, depois barão de Forte de Coimbra. Quando as munições se esgotaram, os defensores abandonaram a fortaleza e se retiraram, rio acima, a bordo da canhoneira Anhambaí, em direção a Corumbá. Depois de ocupar o forte já vazio, os paraguaios avançaram rumo ao norte, tomando, em janeiro de 1865, as cidades de Albuquerque e de Corumbá.
A segunda coluna paraguaia, comandada pelo coronel Francisco Isidoro Resquin e integrada por quatro mil homens, penetrou, por terra, em uma região mais ao sul de Mato Grosso, e logo enviou um destacamento para atacar a colônia militar fronteiriça de Dourados. O cerco, dirigido pelo major Martín Urbieta; encontrou brava resistência por parte do tenente Antônio João Ribeiro, atualmente patrono do Quadro Auxiliar de Oficiais, e de seus 16 companheiros, que morreram sem se render (29 de dezembro de 1864). Os invasores prosseguiram até Nioaque e Miranda, derrotando as tropas do coronel José Dias da Silva. Enviaram em seguida um destacamento até Coxim, tomada em abril de 1865.
As forças paraguaias, apesar das vitórias obtidas, não continuaram sua marcha até Cuiabá, a capital da província, onde o ataque inclusive era esperado — João Manuel Leverger havia fortificado o acampamento de Melgaço para proteger Cuiabá. O principal objetivo da invasão de Mato Grosso foi distrair a atenção do governo brasileiro para o norte do Paraguai, quando a decisão da guerra se daria no sul (região mais próxima do estuário do Prata). É o que se chama de uma manobra diversionista, destinada a iludir o inimigo.
A invasão de Corrientes e do Rio Grande do Sul foi a segunda etapa da ofensiva paraguaia. Para levar apoio aos blancos, no Uruguai, as forças paraguaias tinham que atravessar território argentino. Em março de 1865, López pediu ao governo argentino autorização para que o exército comandado pelo general Venceslau Robles, com cerca de 25 mil homens, atravessasse a província de Corrientes. O presidente Bartolomeu Mitre, aliado do Brasil na intervenção no Uruguai, negou-lhe a permissão. Em resposta a esta negativa, no dia 18 de março de 1865, o Paraguai declarou guerra à Argentina.
Uma esquadra paraguaia, descendo o rio Paraná, aprisionou navios argentinos no porto de Corrientes. Em seguida, as tropas do general Robles tomaram a cidade. Ao invadir Corrientes, López pensava obter o apoio do poderoso caudilho argentino Justo José de Urquiza, governador das províncias de Corrientes e Entre Ríos, chefe federalista hostil a Mitre e ao governo de Buenos Aires. No entanto, a atitude ambígua assumida por Urquiza manteve estacionadas as tropas paraguaias, que avançaram posteriormente cerca de 200 km em direção ao sul, mas terminaram por perder a ofensiva.
Em ação conjugada com as forças de Robles, uma tropa de dez mil homens sob as ordens do tenente-coronel Antônio de la Cruz Estigarribia cruzou a fronteira argentina ao sul de Encarnación, em maio de 1865, dirigindo-se para o Rio Grande do Sul. Atravessou-o no rio Uruguai na altura da vila de São Borja e a tomou em 12 de junho. Uruguaiana, mais ao sul, foi tomada em 5 de agosto sem apresentar qualquer resistência significativa ao avanço paraguaio.
A primeira reação brasileira foi enviar uma expedição para combater os invasores em Mato Grosso. A coluna de 2.780 homens comandados pelo coronel Manuel Pedro Drago saiu de Uberaba, em Minas Gerais, em abril de 1865, e só chegou a Coxim em dezembro do mesmo ano, após uma difícil marcha de mais de dois mil quilômetros através de quatro províncias do Império. Mas encontrou Coxim já abandonada pelo inimigo. O mesmo aconteceu em Miranda, onde chegou em setembro de 1866. Em janeiro de 1867, o coronel Carlos de Morais Camisão assumiu o comando da coluna, reduzida a 1.680 homens, e decidiu invadir o território paraguaio, onde penetrou até Laguna, em abril. Perseguida pela cavalaria inimiga, a coluna foi obrigada a recuar, ação que ficou conhecida como a retirada da Laguna.
Apesar dos esforços da coluna do coronel Camisão e da resistência organizada pelo presidente da província, que conseguiu libertar Corumbá em junho de 1867, a região invadida permaneceu sob o controle dos paraguaios. Só em abril de 1868 é que os invasores se retiraram, transferindo as tropas para o principal teatro de operações, no sul do Paraguai.
No dia 1°. de maio de 1865, o Brasil, a Argentina e o Uruguai assinaram, em Buenos Aires, o Tratado da Tríplice Aliança, contra o Paraguai.
As forças militares da Tríplice Aliança eram, no início da guerra, francamente inferiores às do Paraguai, que contava com mais de 60 mil homens e uma esquadra de 23 vapores e cinco navios apropriados à navegação fluvial. Sua artilharia possuía cerca de 400 canhões.
As tropas reunidas do Brasil, da Argentina e do Uruguai, prontas a entrar em ação, não chegavam a 1/3 das paraguaias. A Argentina dispunha de aproximadamente 8 mil soldados e de uma esquadra de quatro vapores e uma goleta. O Uruguai entrou na guerra com menos de três mil homens e nenhuma unidade naval. Dos 18 mil soldados com que o Brasil podia contar, apenas 8 mil já se encontravam nas guarnições do sul. A vantagem dos brasileiros estava em sua marinha de guerra: 42 navios com 239 bocas de fogo e cerca de quatro mil homens bem treinados na tripulação. E grande parte da esquadra já se encontrava na bacia do Prata, onde havia atuado, sob o comando do Marquês de Tamandaré, na intervenção contra Aguirre.
Na verdade, o Brasil achava-se despreparado para entrar em uma guerra. Apesar de sua imensidão territorial e densidade populacional, o Brasil tinha um exército mal-organizado e muito pequeno. E, na verdade, tal situação era reflexo da organização escravista da sociedade, que, marginalizando a população livre não proprietária, dificultava a formação de um exército com senso de responsabilidade, disciplina e patriotismo. Além disso, o serviço militar era visto como um castigo sempre a ser evitado e o recrutamento era arbitrário e violento. As tropas utilizadas até então nas intervenções feitas no Prata eram constituídas basicamente pelos contingentes armados de chefes políticos gaúchos e por alguns efetivos da Guarda Nacional. Um reforço era, portanto, necessário. A infantaria brasileira que lutou na Guerra do Paraguai não era formada de soldados profissionais, mas pelos chamados Voluntários da Pátria, cidadãos que se apresentavam para lutar. Muitos eram escravos enviados por fazendeiros e negros alforriados. A cavalaria era formada pela Guarda Nacional do Rio Grande do Sul.
Segundo o Tratado da Tríplice Aliança, o comando supremo das tropas aliadas caberia a Bartolomeu Mitre, presidente da Argentina. E foi assim na primeira fase da guerra.
Foi no setor naval que o Brasil, mais bem preparado, infligiu, logo no primeiro ano de guerra, uma pesada derrota aos paraguaios na batalha do Riachuelo.
Na bacia do rio da Prata as comunicações eram feitas pelos rios; quase não havia estradas. Quem controlasse os rios ganharia a guerra. Todas as fortalezas paraguaias tinham sido construídas nas margens do baixo curso (parte do rio perto de sua foz) do rio Paraguai.
Em 11 de junho de 1865, no rio Paraná, travou-se a Batalha Naval do Riachuelo, na qual a esquadra comandada pelo chefe-de-divisão Francisco Manuel Barroso da Silva derrotou a esquadra paraguaia, comandada por Pedro Inacio Meza, cortando as comunicações com o tenente-coronel paraguaio Antonio de la Cruz Estigarribia, que estava atacando o Rio Grande do Sul. A vitória do Riachuelo teve notável influência nos rumos da guerra: impediu a invasão da província argentina de Entre Ríos, destruiu o poderio naval paraguaio (tornando-se impossível a permanência dos paraguaios em território argentino) e cortou a marcha, até então triunfante, de López. Ela praticamente decidiu a guerra em favor da Tríplice Aliança, que passou a controlar, a partir de então, os rios da bacia platina até a entrada do Paraguai. Desse momento até a derrota final, o Paraguai teve de recorrer à guerra defensiva.
Quase ao mesmo tempo, as tropas imperiais repeliam o Exército paraguaio que invadira o Rio Grande do Sul. Os paraguaios, sob o comando do tenente-coronel Estigarribia, haviam atravessado o rio Uruguai e ocupado sucessivamente, de junho a agosto, as povoações de São Borja, Itaqui e Uruguaiana. Outra coluna (3.200 homens), que, sob as ordens do major Pedro Duarte, pretendia chegar ao Uruguai, foi detida por Flores, em 17 de agosto, na batalha de Jataí, na margem direita do rio Uruguai.
Em 16 de julho, o Exército Brasileiro chegou à fronteira do Rio Grande do Sul e logo depois cercou Uruguaiana. A tropa recebeu reforços e enviou pelo menos três intimações de rendição a Estigarribia. Em 11 de setembro Dom Pedro II chegou ao local do cerco, onde já estavam os presidentes argentino Bartolomé Mitre e uruguaio Venancio Flores, além de diversos líderes militares, como o Almirante Tamandaré. As forças aliadas do cerco contavam então com 17346 combatentes, sendo 12393 brasileiros, 3802 argentinos e 1220 uruguais, além de 54 canhões. A rendição veio em 16 de setembro quando Estigarribia aceitou entrou em acordo em relação as condições exigidas.
Encerrava-se com esse episódio a primeira fase da guerra, em que Solano López lançara sua grande ofensiva nas operações de invasão da Argentina e do Brasil. No início de outubro, as tropas paraguaias de ocupação em Corrientes receberam de López ordem para retornar a suas bases em Humaitá. Nessa altura, as tropas aliadas estavam-se reunindo sob o comando de Mitre no acampamento de Concórdia, na província argentina de Entre Ríos, com o marechal-de-campo Manuel Luís Osório à frente das tropas brasileiras. Parte destas deslocou-se para Uruguaiana, onde foi reforçar o cerco a esta cidade pelo exército brasileiro no Rio Grande do Sul, comandado pelo tenente-general Manuel Marques de Sousa, barão e depois Conde de Porto Alegre. Os paraguaios renderam-se no dia 18 de Setembro de 1865.
Nos meses seguintes, as tropas aliadas, com Mitre como comandante-em-chefe, libertavam os últimos redutos paraguaios em território argentino, as cidades de Corrientes e São Cosme, na confluência dos rios Paraná e Paraguai, no final de 1865. No fim do ano de 1865, a ofensiva era da Tríplice Aliança. Seus exércitos já contavam mais de 50 mil homens e se preparavam para invadir o Paraguai.
Fortalecidos, com um efetivo de cinqüenta mil homens, os aliados lançaram-se à ofensiva. A invasão do Paraguai iniciou-se subindo o curso do rio Paraguai, a partir do Passo da Pátria. Sob o comando do general Manuel Luís Osório, e com o auxílio da esquadra imperial, transpuseram o rio Paraná, em 16 de abril de 1866, e conquistaram posição em território inimigo, em Passo da Pátria, uma semana depois. De abril de 1866 a julho de 1868, as operações militares concentraram-se na confluência dos rios Paraguai e Paraná, onde estavam os principais pontos fortificados dos paraguaios. Durante mais de dois anos o avanço dos invasores foi bloqueado naquela região, apesar das primeiras vitórias da Tríplice Aliança.
A primeira posição a ser tomada foi a Fortaleza de Itapiru. Após a batalha do Passo da Pátria e a do Estero Bellaco (2 de Maio), as forças aliadas acamparam nos pântanos de Tuiuti, em 20 de maio, onde sofreram um ataque paraguaio quatro dias depois. A primeira batalha de Tuiuti, a maior batalha campal da história da América do Sul e uma das mais importantes e sangrentas do conflito, foi vencida pelos aliados em 24 de Maio de 1866 e deixou um saldo de 10.000 mortos.
Por motivos de saúde, em julho de 1866 Osório passou o comando do 1°Corpo de Exército brasileiro ao general Polidoro da Fonseca Quintanilha Jordão. Na mesma época, chegava ao teatro de operações o 2°Corpo de Exército, trazido do Rio Grande do Sul pelo barão de Porto Alegre (10.000 homens).
O caminho para Humaitá não fora desimpedido. O comandante Mitre aproveitou as reservas de dez mil homens trazidos pelo barão de Porto Alegre e decidiu atacar as baterias do Forte de Curuzú e do Forte de Curupaiti, que guarneciam a direita da posição de Humaitá, às margens do rio Paraguai. Atacada de surpresa, a bateria de Curuzu foi conquistada em 3 de setembro pelo barão de Porto Alegre. Não se obteve, porém, o mesmo êxito em Curupaiti, que resistiu ao ataque de 20 mil argentinos e brasileiros, guiados por Mitre e Porto Alegre, com apoio da esquadra do almirante Tamandaré. Em 22 de setembro, os aliados foram dizimados pelo inimigo: cinco mil homens morreram em poucas horas. Este ataque fracassado criou uma crise de comando e deteve o avanço dos aliados.
Nessa fase da guerra, destacaram-se muitos militares brasileiros. Entre eles, os heróis de Tuiuti: o general José Luís Mena Barreto, o brigadeiro Antônio de Sampaio, patrono da arma de infantaria do Exército brasileiro, o tenente-coronel Emílio Luís Mallet, patrono da artilharia e o próprio Osório, patrono da cavalaria, além do tenente-coronel João Carlos de Vilagrã Cabrita, patrono da arma de engenharia, morto em Itapiru.
No segundo período da guerra (1866-1869), os desentendimentos entre Osório (comandante das forças brasileiras) e o presidente argentino, que se opunha às perseguições aos paraguaios, levou o governo brasileiro a substituí-lo. Designado em 10 de outubro de 1866 para o comando das forças brasileiras, o marechal Luís Alves de Lima e Silva, marquês e, posteriormente, Duque de Caxias, chegou ao Paraguai em novembro, encontrando o exército praticamente paralisado. Os contingentes argentinos e uruguaios vinham sendo retirados aos poucos do exército dos aliados, assolado por epidemias. Desentendimentos entre Venâncio Flores (Uruguai) e Mitre (Argentina) e problemas internos fizeram ambos se retirarem do combate e voltarem a seus países, deixando o Brasil praticamente sozinho. Tamandaré foi substituído no comando da esquadra pelo almirante Joaquim José Inácio, futuro visconde de Inhaúma. Paralelamente, Osório organizava um 3.°Corpo de exército no Rio Grande do Sul (cinco mil homens). Na ausência de Mitre, Caxias assumiu o comando geral e providenciou a reestruturação do exército.
Entre novembro de 1866 e julho de 1867, Caxias organizou um corpo de saúde (para dar assistência aos inúmeros feridos e combater a epidemia de cólera-morbo) e um sistema de abastecimento das tropas. Conseguiu também que a esquadra imperial, que se ressentia do comando de Mitre, colaborasse nas manobras contra Humaitá. Nesse período, as operações militares limitaram-se a escaramuças com os paraguaios e a bombardeios da esquadra contra Curupaiti. López aproveitava a desorganização do inimigo para reforçar suas fortificações em Humaitá.
Apesar dos esforços de Caxias, os aliados só reiniciaram a ofensiva em 22 de julho de 1867. A marcha de flanco pela ala esquerda das fortificações paraguaias constituía a base tática de Caxias: ultrapassar o reduto fortificado paraguaio, cortar as ligações entre Assunção e Humaitá e submeter esta última a um cerco. Com este fim, Caxias iniciou a marcha em direção a Tuiu-Cuê. Em 1º de agosto Mitre retornou ao comando e insistia no ataque pela ala direita, que já se mostrara desastroso em Curupaiti. Embora a manobra de Caxias tenha sido bem-sucedida, o tempo decorrido possibilitou a López fortificar-se também nessa região e fechar de vez o chamado Quadrilátero.
Mitre deu ordens para que a esquadra imperial forçasse a passagem em Curupaiti e Humaitá. Em 15 de agosto, duas divisões de cinco encouraçados ultrapassaram, sem perdas, Curupaiti, mas foram obrigadas a deter-se frente aos poderosos canhões da fortaleza de Humaitá. O fato causou novas dissensões no alto comando aliado. Mitre desejava que a esquadra prosseguisse. Os brasileiros, entretanto, consideravam imprudente e inútil prosseguir, enquanto não se concatenassem ataques terrestres para envolver o Quadrilátero, que se iniciaram, finalmente, em 18 de agosto.
A partir de Tuiu-Cuê, os aliados rumaram para o norte e tomaram São Solano, Vila do Pilar e Tayi, às margens do rio Paraguai, onde completaram o cerco da fortaleza por terra e cortaram as comunicações fluviais entre Humaitá e Assunção. Em 3 de novembro de 1867, como reação, López atacou a retaguarda da posição aliada de Tuiuti. Nessa segunda batalha de Tuiuti, López esteve próximo da vitória, mas, graças ao reforço trazido pelo general Porto Alegre, os brasileiros venceram.
Em janeiro de 1868, com o afastamento definitivo de Mitre, que retornou à Argentina, Caxias voltou a assumir o comando geral dos aliados. Em 19 de fevereiro a esquadra imperial, capitão-de-mar-e-guerra Delfim Carlos de Carvalho, depois barão da Passagem, forçou a passagem de Humaitá. Apesar os navios encouraçados terem ultrapassado a fortaleza, chegando a bombardear Assunção, só em 25 de julho de 1868 Humaitá, totalmente cercada, caiu após um demorado cerco.
Solano López deixara Humaitá, com parte de suas tropas, em março, indo se instalar em San Fernando. Ali descobriu que alguns funcionários de seu governo e seu irmão Benigno tramavam derrubá-lo. Formado um conselho de guerra para julgar os implicados, centenas foram executados, no que ficou conhecido como o massacre de San Fernando.
Efetuada a ocupação de Humaitá, as forças aliadas comandadas por Caxias marcharam 200 km até Palmas, fronteiriça às novas fortificações inimigas (30 de setembro). Situadas ao longo do arroio Piquissiri, essas fortificações barravam o caminho para Assunção, apoiadas nas Fortificações de Lomas Valentinas. Ali, López havia concentrado 18 mil paraguaios em uma linha fortificada que explorava habilmente os acidentes do terreno e se apoiava nos fortes de Angostura e Itá-Ibaté. Renunciando ao combate frontal, o comandante brasileiro idealizou, então, a mais brilhante e ousada operação do conflito: a manobra do Piquissiri. Em 23 dias fez construir uma estrada de 11 km através do Chaco pantanoso que se estendia pela margem direita do rio Paraguai, enquanto forças brasileiras e argentinas encarregavam-se de diversões frente à linha do Piquissiri. Executou-se então a manobra: três corpos do Exército brasileiro, com 23.000 homens, foram transportados pela esquadra imperial de Humaitá para a margem direita do rio, percorreram a estrada do Chaco em direção ao nordeste, reembarcaram em frente ao porto de Villeta, e desceram em terra no porto de Santo Antônio e Ipané, novamente na margem esquerda, vinte quilômetros à retaguarda das linhas fortificadas paraguaias do Piquissiri. López foi inteiramente surpreendido por esse movimento, tamanha era sua confiança na impossibilidade de grandes contingentes atravessarem o Chaco.
Na noite de 5 de dezembro, as tropas brasileiras encontravam-se em terra e, em vez de avançar para a capital, já desocupada pela população e bombardeada pela esquadra, iniciaram no dia seguinte o movimento para o sul, conhecido como a "dezembrada". A dezembrada constituiu-se de uma série de vitórias obtidas por Caxias em dezembro de 1868. No mesmo dia, o general Bernardino Caballero tentou barrar-lhes a passagem na ponte sobre o arroio Itororó. Na tomada da ponte de Itororó, Caxias, aos 65 anos de idade, partiu a galope em direção ao inimigo, com espada em punho, exclamando: "sigam-me os que forem brasileiros!"; não foi morto por sorte. Vencida a batalha de Itororó, o Exército brasileiro prosseguiu na marcha e aniquilou na localidade de Avaí, em 11 de dezembro, as duas divisões de Caballero. Em 21 de dezembro, tendo recebido o necessário abastecimento por Villeta, os brasileiros atacaram o Piquissiri pela retaguarda e, após seis dias de combates contínuos, conquistaram a posição de Lomas Valentinas, com o que obrigou a guarnição de Angostura a render-se em 30 de dezembro. As batalhas da Dezembrada exibiram espantosas mortandades dos dois lados, bem como tentativas de debandadas das tropas brasileiras, impedidas graças à presença de Caxias na linha de frente. López, acompanhado apenas de alguns contingentes, fugiu para o norte, na direção da cordilheira.
Após destruir o exército paraguaio em Lomas Valentinas, Caxias acreditava que a guerra tinha acabado. Não se preocupou em organizar e chefiar a perseguição de López, pois parecia que o ditador fugia para se asilar em outro país e não, como se viu depois, para improvisar um exército e continuar a resistir no interior.
No dia 24 de Dezembro os três novos comandantes da Tríplice Aliança (Caxias, o argentino Gelly y Obes e o uruguaio Enrique Castro) enviaram uma intimação a Solano López para que se rendesse. Mas López recusou-se a ceder e, acompanhado apenas de alguns contingentes, fugiu para o norte, na direção da cordilheira, chegando a Cerro León.
O comandante-em-chefe brasileiro se dirigiu para Asunción, evacuada pelos paraguaios e ocupada em 1° de Janeiro de 1869 por tropas imperiais comandadas pelo coronel Hermes Ernesto da Fonseca, pai do futuro Marechal Hermes da Fonseca. No dia 5, Caxias entrou na cidade com o restante do exército e 13 dias depois, por motivo de saúde, deixou o comando e regressou ao Brasil. A partida de Caxias e de seus principais chefes militares fez crescer entre as tropas o desânimo, com a multiplicação dos pedidos de dispensa dos oficiais e voluntários.