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O Califado de Córdova (929 – 1031) foi a forma de governo islâmico que dominou a maior parte da península Ibérica e do Norte de África a partir da cidade de Córdova. O Califado sucedeu ao Emirato Independente instaurado por Abderramão I em 756. O título de califa foi reclamado por Abd-ar-Rahman III a 16 de Janeiro de 929; Rahman já era reconhecido como emir de Córdova. Todos os califas de Córdova foram membros da dinastia omíada, a mesma que detinha o título de emir de Córdova e governava praticamente o mesmo território desde 756.
O Califado perdurou oficialmente até 1031, em que foi abolido dando lugar à fragmentação do estado omíada em múltiplos reinos conhecidos como Taifas.
O Califado de Córdova foi a época de máximo esplendor político, cultural e comercial de Al-Andalus.
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A partir de 912, o novo emir Abd al-Rahman empreendeu a tarefa de reduzir a múltiplos focos rebeldes que surgiram no Emirato desde meados do século IX. Em 913 iniciou a campanha de Monteleón que conseguiu recuperar numerosos castelos e sufocar a rebelião na Andaluzia Oriental. Durante os anos seguintes recuperou Sevilha e efetuou as primeiras razias contra os reinos cristãos do norte. Derrotou um exército de Leão e Navarra na batalha de Valdejunquera (920); saqueou Pamplona em 924 e submeteu os Banu Qasi esse mesmo ano. Finalmente em 928 ocupou a fortificação de Bobastro através de uma série de campanhas iniciadas em 917, terminando assim com a rebelião iniciada por Omar ibn Hafsun e o último foco de rebeldia em Al-Andalus. Em 929 tomou o título de califa com o apelido Nasir li-din Allah, aquele que faz triunfar a religião de Deus.
Abderramão III considerou adequada a sua autoproclamação como califa, ou seja, como chefe político e religioso dos muçulmanos e sucessor de Maomé, baseando-se em quatro feitos: ser membro da tribo de Quraysh à que pertencia Maomé, liquidar as revoltas internas, frear as ambições dos núcleos cristãos do norte peninsular e a criação do califado fatímida em África do Norte oposto aos califas Abássidas de Bagdade. A proclamação tinha um duplo propósito. Por um lado, no interior, os Omíadas queriam reforçar a sua posição. Por outro, no exterior, ao objeto de consolidar as rotas marítimas para o comércio no Mediterrâneo, garantindo as relações econômicas com Bizâncio e assegurar o fornecimento de ouro.
A proclamação do califado cordovês implicou a segunda ruptura da unidade islâmica após a proclamação do fatímida Mahdi Ubayd Allah como Emir dos Crentes no Magrebe.
Os reinados de Abderramão III (929-961) e o seu filho al-Hakam II (961-976) constituem o período de apogeu do califado omíada, no que se consolida o aparato estatal cordovês.
Para afiançar o aparato estatal, os soberanos recorreram a oficiais fiéis à dinastia Omíada, o qual configurou uma aristocracia palatina de fata'ls (escravos e libertos de origem europeia), que foi progressivamente aumentando o seu poder civil e militar, suplantando assim a aristocracia de origem árabe. No exército incrementou especialmente a presença de contingentes berberes, devido à intensa política do Califado no Magrebe. Abderramão III submeteu os senhores feudais, os quais pagavam tributos ou serviam no exército, contribuindo para o controlo fiscal do Califado.
As empresas militares consolidaram o prestígio dos omíadas fora de Al-Andalus e visavam garantir a segurança das rotas comerciais. A política exterior focou-se em três direções: os reinos cristãos do norte peninsular, o norte da África e o Mediterrâneo.
Durante os primeiros anos do califado, a aliança do rei leonês Ramiro II com Navarra e o conde Fernão Gonzalez ocasionaram o desastre do exército do califado na batalha de Simancas. Mas à morte de Ramiro II, Córdova pôde desenvolver uma política de intervenção e arbitragem nas querelas internas de leoneses, castelhanos e navarros, enviando frequentemente contingentes armados para fustigar os reinos cristãos. A influência do Califado sobre os reinos cristãos do norte chegou a ser tal que entre 951 e 961, os reinos de Leão, Navarra e Castela e o Condado de Barcelona lhe rendiam tributo.
As relações diplomáticas foram intensas. A Córdova chegaram embaixadores do conde de Barcelona Borrell, de Sancho II de Navarra, de Elvira Ramírez de Leão, de García Fernández de Castela e o conde Fernando Ansúrez entre outros. Estas relações não estiveram faltas de enfrentamentos bélicos, como o cerco de Gormaz de 975, onde um exército de cristãos enfrentou o general Galib.
A política cordovesa no Magrebe foi igualmente intensa, particularmente durante o reinado de al-Hakam II. Na África, os omíadas enfrentaram os fatímidas, que controlavam cidades como Tahart e Siyilmasa, pontos fundamentais das rotas comerciais entre a África subsaariana e o Mediterrâneo, se bem que este confronto não foi direto entre ambas as dinastias. Os omíadas apoiaram-se nos zanata e os idríssidas e o califado fatímida, nos ziridas sinhaia.
Eventos importantes foram a ocupação de Melilha, Tânger e Ceuta, ponto desde o qual se podia evitar o desembarque fatímida na península. Após a tomada de Melilha em 927, em meados do século X os Omíadas controlaram o triângulo formado por Argel, Siyilmasa e o oceano Atlântico, e promoveram revoltas que chegaram a pôr em perigo a estabilidade do califado fatímida.
Contudo, a situação mudou após a ascensão de Al-Muizz ao califado fatímida. Almeria foi saqueada e os territórios africanos sob autoridade omíada passaram a ser controlados pelos fatímidas, retendo os cordoveses apenas Tánger e Ceuta. A entrega do governo de Ifriqiya a Ibn Manad provocou o confronto direto que se tentara evitar anteriormente, se bem que Ya'far ibn Ali al-Andalusi conseguiu deter o Zirida ibn Manad.
Em 972 estourou uma nova guerra no norte da África, provocada nesta ocasião por Ibn Guennun, senhor de Arzila, que foi vencido pelo general Galib. Esta guerra teve como consequência o envio de grandes quantidades de dinheiro e tropas para o Magrebe e a contínua imigração de berberes para Al-Andalus.
Um terceiro objetivo da atividade bélica e diplomática do califado esteve orientada para o Mediterrâneo.
O Califado manteve relações com o Bizâncio de Constantino VII e emissários cordoveses estiveram presentes em Constantinopla. O poder do califado estendia-se também para norte, e ao redor de 950 o Sacro Império Romano-Germânico intercambiava embaixadores com Córdova, do qual fica registro dos protestos contra a pirataria muçulmana praticada desde Fraxinetum e as ilhas orientais de Al-Andalus. Igualmente, alguns anos antes, Hugo de Arlês solicitava salvo-condutos para que os seus barcos mercantes pudessem navegar pelo Mediterrâneo, dando ideia portanto do poder marítimo que ostentava Córdova.
A partir de 942 foram estabelecidas relações mercantis com a República amalfitana e no mesmo ano foi recebida uma embaixada de Sardenha.
O apogeu do califado cordovês manifestava-se na sua capacidade de centralização fiscal, que geria as contribuições e rendas do país: impostos territoriais, dízimos, arrendamentos, pedágios, impostos de capitação, taxas alfandegárias sobre mercadorias, bem como os direitos percebidos nos mercados sobre joias, aparelhos de navios, peças de ourivesaria, etc. Assim mesmo, os cortesãos estavam submetidos a contribuição.
A opulência do califado durante estes anos fica refletida na palavras do geógrafo Ibn Hawqal:
. Para realçar a sua dignidade e à imitação de outros califas anteriores, Abderramão III edificou a sua própria cidade palatina: Medina Azahara. Esta foi a etapa da presença islâmica na península Ibérica de maior esplendor, embora de curta duração, pois na prática terminou em 1009 com a fitna (guerra civil) pelo trono entre os partidários do último califa legítimo, Hisham II, e os sucessores do seu primeiro-ministro ou hayib Almançor. Oficialmente, porém, o califado continuou existindo até 1031, em que foi abolido dando lugar à fragmentação do estado omíada em múltiplos reinos conhecidos como Taifas.
A fitna começou em 1009 com um golpe de Estado que implicou o assassinato de Abderramão Sanchuelo, filho de Almançor, a deposição de Hisham II e a ascensão ao poder de Muhammad ibn Hisham ibn Abd al-Yabbar, bisneto de Abderramão III. No fundo encontravam-se também problemas como a agoniante pressão fiscal necessária para financiar o custo dos esforços bélicos.
Ao longo do conflito, os diversos contendedores chamaram na sua ajuda os reinos cristãos. Córdova e os seus arrabaldes foram saqueados repetidas vezes, e os seus monumentos, entre eles o Alcázar e Medina Azahara, destruídos. A capital chegou a mover-se temporalmente para Málaga. Em pouco mais de vinte anos sucederam 10 califas diferentes (entre eles Hisham II restaurado), pertencentes três de eles a uma dinastia diferente da Omíada, a hamádida.
No meio de uma desordem total independentizaram-se paulatinamente as taifas de Almeria, Múrcia, Alpuente, Arcos, Badajoz, Carmona, Denia, Granada, Huelva, Morón, Silves, Toledo, Tortosa, Valência e Saragoça. O último califa, Hisham III, foi deposto em 1031, e proclamou-se em Córdova a república. Para então todas as cora (províncias) de Al-Andalus ainda não independentizadas proclamaram-se independentes.
A queda do califado implicou para Córdova a perda definitiva da hegemonia de Al-Andalus e a sua ruína como metrópole.
A economia do Califado baseou-se numa considerável capacidade econômica -fundamentada num comércio muito importante-, uma indústria artesã muito desenvolvida e técnicas agrícolas mais desenvolvidas que em qualquer outra parte da Europa. Baseava a sua economia na moeda, cuja cunhagem teve um papel fundamental no seu esplendor financeiro. A moeda de ouro cordovesa tornou-se das mais importantes à época, sendo provavelmente imitada pelo Império Carolíngio. Assim, o Califado foi a primeira economia comercial e urbana da Europa após o desaparecimento do Império Romano.
À cabeça da rede urbana estava a capital, Córdova, a cidade mais importante do Califado, que superava os 250.000 habitantes em 935 e rebordou os 500.000 em 1000 (alguns historiadores ainda falam de 1.000.000 de habitantes, baseando-se em recentes achados arqueológicos de dimensões superiores às acreditadas, cumprindo muitas das crônicas por enquanto tidas por exageradas), sendo durante o século X uma das maiores cidades do Mundo e um centro financeiro, cultural, artístico e comercial de primeira ordem.
Outras cidades importantes foram Toledo (37.000), Almeria (27.000), Saragoça (17.000) e Valência (15.000).
Abderramão III não somente fez de Córdova o centro neurálgico de um novo império muçulmano em Ocidente, senão que a converteu na principal cidade da Europa Ocidental, rivalizando ao longo de um século com Bagdade e Constantinopla (capitais do Califado Abássida e o Império Bizantino, respectivamente) em poder, prestígio, esplendor e cultura. Segundo fontes árabes, sob o seu governo, a cidade alcançou o milhão de habitantes,[1] que dispunham de mil seiscentas mesquitas, trezentas mil moradias, oitenta mil lojas e inumeráveis banhos públicos.
O califa omíada foi também um grande impulsionador da cultura: dotou a Córdova com cerca de setenta bibliotecas, fundou uma universidade, uma escola de medicina e outra de tradutores do grego e do hebreu para o árabe. Fez ampliar a Mesquita de Córdova, reconstruindo o almenar, e ordenou construir a extraordinária cidade palatina de Madinat al-Zahra, da qual fez a sua residência até a sua morte.
Os aspectos de desenvolvimento cultural não são menos relevantes após a chegada ao poder do califa al-Hakam II a quem foi atribuída a fundação de uma biblioteca que teria atingido os 400.000 volumes. Talvez isso provocou a assunção de postulados da filosofia clássica -tanto grega quanto latina- por parte de intelectuais da época como foram Ibn Massarra, Ibn Tufail, Averróis e o judeu Maimônides, embora os pensadores destacassem, sobretudo, em medicina, matemáticas e astronomia.